Pacientes renais estão sob risco em Duque de Caxias

  • Publicado em Matérias

“O prefeito e o secretário de saúde estão condenando essas pessoas a morrerem...”, diz Associação

 Pacientes renais estão sob ok DSC01298 Jornal Capital Marcelo Cunha

A falta de pagamento por parte da Prefeitura de Duque de Caxias à clínicas de hemodiálise está provocando desespero em pacientes e familiares. Para chamar a atenção da gravidade do caso, eles realizaram um protesto na manhã da última segunda-feira (25) na porta da Segumed, na Rua Conde de Porto Alegre, no bairro 25 de Agosto, quando denunciaram o descaso do poder público, que coloca suas vidas em risco.

A Segumed e a Prontocárdio, duas das três clínicas credenciadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), confirmaram ao Capital o atraso nos pagamentos. Ambas pertencem ao grupo Nefrocare, de Campinas, São Paulo. Devido à sua gravidade, o problema foi levado ao conhecimento da Associação dos Doentes Renais e Transplantados do Estado do Rio de Janeiro-ADRETERJ.

- Fizemos uma reunião com os pacientes e informamos que estamos tentando segurar o problema já tem um bom tempo, pois o repasse da prefeitura, não estamos recebendo. A gente está com dificuldade na compra de material e de pagamento de funcionários. Isso tá virando uma bola de neve - disse ao Capital a chefe de enfermagem da Segumed, Rosane Fialho, que fez um pedido às autoridades responsáveis “Não queremos interromper os serviços de forma alguma, pois sabemos dos riscos que os pacientes correm. Para que isso não venha a ocorrer, precisamos de uma solução rápida”. A analista administrativa da clinica, Monique Gomes disse que, nas condições atuais, é grande a possibilidade da Segumed fechar as portas. Segundo ela, aproximadamente 120 pacientes fazem sessões de hemodiálises três vezes por semana. “Como vão ficar esses pacientes se o atendimento tiver que ser interrompido?”, indagou Monique. “Somente na sexta-feira [dia 22] é que conseguimos receber o mês de fevereiro, isso porque tivemos fomos várias vezes à Secretaria de Saúde. Falar com o Secretário é um desafio que ainda não conseguimos vencer”, acrescentou. A clinica ainda não recebeu os meses de abril a agosto deste ano.

Prontocárdio Marcelo CunhaATRASOS - O Capital procurou também o Prontocárdio, que confirmou o atraso no pagamento dos serviços. “No dia 22 [sexta-feira] recebemos o mês de maio, ficando em atraso os meses de dezembro de 2016, abril, junho, julho e agosto de 2017”, esclareceu a administradora Merielem Canuto. “Fazemos contatos frequentes com a secretaria e lá diversas desculpas são dadas. A verba é carimbada para saúde, logo não deveria ocorrer esses atrasos”, completou. A clínica atende no momento 193 pacientes, enviados pelo SUS. Assim como a Segumed, a empresa está com problemas para pagamento de salários dos funcionários e fornecedores.

            Procurado pelo Capital, o Núcleo do Ministério da Saúde no Estado do Rio de Janeiro informou que os repasses para custeios dos serviços de Nefrologia estão em dia. Para Duque de Caxias, já foram repassados R$ 10,7 milhões para custear estes serviços em 2017. Em 2016, foram destinados R$ 16,6 milhões para o município”, acrescentou o órgão. “Cabe esclarecer que o financiamento do SUS é tripartite (União, Estados e municípios). Os gestores municipais e estaduais de saúde são responsáveis pelo atendimento direto à população nas localidades, gestão das unidades de saúde e pelas pactuações e contratualizações com serviços de saúde no âmbito local, incluindo o pagamento de incentivos financeiros aos estabelecimentos de saúde que prestam assistência ao SUS”, completou o Ministério.

A reportagem do Capital não conseguiu falar com o Secretário Municipal de Saúde, José Carlos de Oliveira. A Secretaria de Comunicação Social da Prefeitura, por sua vez, não respondeu às perguntas encaminhadas por email. 

 

“É crime o que estão fazendo”,

diz presidente da ADRETERJ

O presidente da Associação dos Doentes Renais e Transplantados do Estado do Rio de Janeiro-ADRETERJ, Gilson Nascimento da Silva, conversou com o Capital e falou sobre os riscos que os pacientes renais estão expostos em Duque de Caxias. Segundo ele, foi realizada a primeira reunião da Associação com a Defensoria Pública da União já na terça-feira (26), 24 horas após a manifestação dos pacientes, para tentar solucionar o problema. “Foi um encontro muito positivo e avançamos bastante. A ideia é resolver os problemas dessas clínicas e, no caso de Duque de Caxias, são três unidades com problemas”, disse. “Elas [clínicas prestadoras] estão arrumando dinheiro emprestado, estão devendo fornecedores, mas não deixaram interromper o básico, que é o tratamento”, assinalou Gilson.

- A sociedade civil precisa saber que o dinheiro que é destinado às unidades de diálise é uma verba carimbada, que vem do Fundo Nacional de Saúde para o Fundo Municipal de Saúde e é de uso exclusivo para pagar as unidades de diálise. A prefeitura não pode usar essa verba para outra coisa. É crime o que estão fazendo. Duque de Caxias, nessa gestão, está com um histórico de mau pagador das unidades de diálise - denunciou o presidente da ADRETERJ. “Uma clínica com 150, 200 pacientes, se tiver um problema hoje e vir a fechar, nós não temos onde colocar as pessoas para fazer diálise rapidamente. É lamentável o que está ocorrendo em Duque de Caxias. O prefeito e o secretário de saúde de Duque de Caxias estão condenando essas pessoas a morrerem, caso haja qualquer intercorrência médica”, concluiu Gilson.